A Conversa Aborda: Reforma Psiquiátrica, Educação Popular e Comunicação

A Conversa Aborda: Reforma Psiquiátrica, Educação Popular e Comunicação

Vitor Pordeus

“Nosso trabalho possibilita a convivência com estados alterados do psiquismo humano através de relações criativas e cooperativas
Para o médico Vitor Pordeus, ciência mesmo é a biologia, a medicina é arte

Joyce Enzler
O Movimento de Luta Antimanicomial também conhecido como Luta Antimanicomial foi um processo organizado de mudanças nos serviços psiquiátricos. Começou com a Reforma Sanitária Brasileira da qual resultou a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e culminou na Reforma Psiquiátrica, que muda o foco na maneira de tratar o doente. A partir desta Reforma, definida pela Lei 10216 de 2001, houve uma queda no quantitativo de leitos no país e de internações psiquiátricas e um aumento na quantidade de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
O Movimento Antimanicomial faz várias atividades, nacionalmente, no dia 18 de maio.  Foi neste dia que aconteceu o Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental, em 1987, na cidade de Bauru, em São Paulo. A mudança da realidade nas instituições manicomiais, novas alternativas terapêuticas ao indivíduo com transtornos mentais foram algumas das propostas tiradas neste Encontro.  E para fechar a *cabeça: “Se meu delírio a monotonia estanca, eu quero mais é delirar”.

Teias: A Comunicação é um instrumento poderoso para auxiliar a Medicina, democratiza o acesso à informação sobre saúde. Quando digo Comunicação, estou pensando em todas as formas de expressão. Você lida com uma delas, o Teatro, como este pode fazer com que a Medicina não seja uma área distante do cidadão comum? 

Vitor Pordeus – Se recuperarmos a história da medicina e do teatro veremos que essas práticas tradicionais do ser humano, cujas origens são difíceis de precisar, sempre atuaram juntas nas figuras dos curandeiros tradicionais, pajés, xamãs, pais e mães de santo, e ao longo de toda medicina grega, medieval, passando por movimentos no renascimento. Depois, em
1818, Goethe descreve o poder terapêutico do teatro na loucura em uma de suas peças "Lila".

Mais recentemente, nas técnicas psicodramáticas de J.L. Moreno, a medicina e o teatro sempre estiveram juntas na construção da saúde humana.

“Quando redescobri a medicina dentro do teatro, obtive resultados clínicos melhores, com melhor eficiência terapêutica na convivência com meus pacientes”

A existência humana é um ato de conhecimento, de Comunicação. É impossível separar as emoções do plano físico, elas são os nomes que damos aos estados dos corpos. A aparente contradição está no processo de modernização da medicina que foi influenciado por um paradigma biológico equivocado. Esta postura leva ao desenvolvimento excessivo das máquinas e das drogas, entretanto, a aproximação com a cultura, com as tradições, com a ancestralidade, com a política comunitária, com a vida coletiva sempre foi algo muito presente e disseminado na história da humanidade. Desse modo quando redescobri a medicina dentro do teatro, obtive resultados clínicos melhores, com melhor eficiência terapêutica na convivência com meus pacientes. Testemunhei processos de emancipação e desenvolvimento mesmo em cenários gravíssimos como esquizofrenia crônica com longo tempo de internação manicomial.

Carrego um fortíssimo referencial científico da Dra. Nise da Silveira –  trabalho no Engenho de Dentro há cinco anos – e acredito firmemente que estamos reencontrando uma tradição humana antiga, das artes da cura, da alquimia, do desenvolvimento humano. E que fique nítido: ciência mesmo é a biologia, a medicina é arte.

Teias – Fale um pouco da Luta Antimanicomial e quais os avanços e retrocessos após a Reforma Psiquiátrica? As famílias dos usuários opinaram sobre esta decisão? Como ficam os usuários que não podem ficar sozinhos em casa e a família não tem condições de pagar alguém para tomar conta?

Pordeus – Eu não consigo separar a Luta Antimanicomial, nem nenhuma luta por direitos gerais ou específicos, do processo político geral de nosso país, isto é, o processo cultural, cotidiano, de se construir uma república democrática, livre, decente, que trate bem o cidadão, que não seja uma ameaça ao seu desenvolvimento físico e psíquico. Vejo que nosso problema é um só, em todas as áreas, é a liberdade civil, a livre expressão, o respeito à diferença.

“É tradição histórica de nosso país fazer uma república democrática para poucos”

De um modo geral a situação é muito ruim, particularmente nos grandes centros, os manicômios estão de pé, não há sinal efetivo de modificação da política educacional das comunidades, não há sinais de que a massa do povo brasileiro vá alcançar níveis de desenvolvimento humano alcançáveis somente através de política transformadora educacional. O máximo que se fala no país, hoje, é em educação profissionalizante para a indústria. Isto ocasionará mais adoecimento. Charles Chaplin profetizou em Tempos Modernos. Não há mobilização política em torno da educação pública, da cultura pública, da saúde pública, coletiva, comunitária.

Todo esse debate, só faz sentido se acontece nas bases, nas favelas, nos hospícios, nos presídios, entre os usuários e trabalhadores do sistema de saúde, do sistema de educação. É onde a vida para valer se passa. E é tradição histórica de nosso país fazer uma república democrática para poucos. Nosso trabalho no Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde, na prefeitura desde o primeiro dia de 2009, estava nas ruas e praças, desde o primeiro dia trabalhando com os Agentes de Controle de Endemia, os Mata-Mosquitos, classe trabalhadora historicamente oprimida. Desde o primeiro dia em contato com a vida comunitária carioca, os avanços que obtivemos se devem principalmente a isso. Outro fator importante é que eu, médico e cientista, nascido e criado em uma COHAB, em Realengo. Conheço bem o modo de vida e a política pública historicamente dispensada ao povo carioca.

Necessário construir uma cultura de solidariedade, práticas comunitárias saudáveis, sustentáveis, com política de desenvolvimento humano para cada comunidade de cada cidade do país, para que a partir da experiência científica nacional possamos construir modelos eficientes de política pública para que a diferença seja entendida como oportunidade de aprendizado, de encontro, de diálogo. Nosso trabalho, que é realizado com esse valor, possibilita a convivência com estados alterados do psiquismo humano através de relações criativas e cooperativas. Se as comunidades cooperassem mais, se abandonassem a filosofia da farinha pouca meu pirão primeiro, seria muito mais simples lidar com qualquer dificuldade, do menor infrator ao doente mental. Hoje o que predomina é o preconceito e o estigma, reflexo de um sistema educacional inadequado e um sistema cultural, que promove a ignorância, a violência e a futilidade. 

Há experiências extremamente bem sucedidas, construídas no SUS, como as Residências Terapêuticas onde os usuários são acompanhados em casas ou apartamentos alugados ou mesmo comprados pelo governo, o que demonstra os efeitos benéficos da desinstitucionalização da doença mental.  

Teias –  O que é o Hotel da Loucura? Fale um pouco do seu trabalho no Instituto Municipal Nise da Silveira e das influências que recebeu ou incorporou dela?

Pordeus – O Hotel da Loucura é uma enfermaria abandonada do antigo hospício do Engenho de Dentro que foi ocupada em julho de 2012 por mais de 50 artistas e pesquisadores do Brasil e Portugal para a produção de um espetáculo público. Em 23 dias de trabalho, o espaço foi simbolicamente modificado, suas práticas culturais, o convívio. Fizemos oficinas, assembleias, práticas de cuidado. Configuramos as metodologias de trabalho da Universidade Popular de Arte e Ciência que é movimento político de libertação do conhecimento através da Arte e da Ciência cujo foco é a Educação Popular em Saúde em todo o país. O espetáculo que montamos na ocasião foi o Auto da Paixão de Nise da Silveira. Mais de 120 atores participaram das apresentações.

A principal razão de trabalharmos no Engenho de Dentro chama-se Nise da Silveira. Esta produziu uma das maiores obras artecientíficas sobre a saúde humana do mundo, método científico de promoção da saúde. Nise descreveu leis gerais do psiquismo humano, revelou de forma original e absolutamente científica o papel da criatividade, da liberdade e do afeto na produção simbólica da saúde humana. Fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, um dos maiores do mundo de arte e loucura que atualmente soma mais de 350 mil obras, fundou a Casa das Palmeiras em 1956, um modelo de assistência comunitária que serviria de modelo para a criação dos CAPS - Centros de Atenção Psicossocial do SUS. Nise abre a porta do inconsciente humano e vai oferecer ferramentas que podemos manejar para estabelecer contato e diálogo simbólico através das formas expressivas, como, por exemplo, em nossa experiência, o Teatro. A linguagem preferencial de estudo da doutora foram as artes visuais, a pintura, o desenho e a escultura. Herdei suas teorias, seus métodos, li sua obra e estou em permanente contato com seus discípulos. Sem Nise, pereceríamos.

Teias – Por que você diz que o educador Paulo Freire é o maior médico da História?

Pordeus –  Porque ele elaborou uma visão de libertação do ser humano, uma forma de cura cultural e política. Descreveu detalhadamente os mecanismos de opressão ideológica e caminhos educacionais e culturais para a superação. Se entendermos que o adoecimento é um processo biológico-cultural e político de opressão, de restrição da potência de agir, de dor, e que a saúde e os processos de cura são igualmente biológico-culturais e políticos porque estão ligados à visão de mundo, preconceitos, padrões de comportamento e práticas culturais, Paulo Freire se tornará um dos mais importantes nomes da saúde pública, da construção republicana, desse país. Eu aprendi muita medicina em Paulo Freire.

Teias – Em tempos de preconceitos religiosos aqui no Brasil, de gente dizendo o que é e o que não é religião, você honra a ancestralidade, trabalha os símbolos. Como aumentar essa rede, fazer com que mais gente discuta sobre e perceba a importância de saber sobre seus antepassados? Conversei com um nativo puri e ele contou que, como nasceu na cidade, pesquisou sobre a Umbanda para ajudá-lo a encontrar literalmente suas raízes.

Pordeus – Temos investido na produção de espetáculos públicos comunitários com participação ampla de atores variados, com inumeráveis estados do ser, permitindo e estimulando a livre-manifestação, de quaisquer linguagens. E sentimos que estamos fazendo algo que o ser humano sempre fez: festas e rituais públicos para integrar as coletividades. Se vamos para além das superfícies dos preconceitos em cada indivíduo, cada família, cada comunidade, desvendaremos um universo, e todos nós nos beneficiaremos com isso. O povo brasileiro está lotado de estratégias poderosas de resistência cultural, como a Umbanda, a Capoeira, o Samba, a Música Popular, as Danças tradicionais e podemos falar muitos mais.

Teias – Como você consegue separar esse Vitor militante que diz coisas como "Liberar e Libertar a cidade do domínio simbólico e apelativo desse teatrinho feito por aqueles que se dizem atores, mas servem a Penteu, o arrogante filho do Ofídio Équion, que comanda as cidades", do Vitor assessor do secretário de saúde?

Pordeus – Não separo. É o mesmo discurso que sustento para mim mesmo e para os outros. O bom nível científico e cultural de diálogo que o Secretário Hans Dohmann mantém comigo vem dos tempos em que eu fazia pesquisa em imunologia de doenças cardiovasculares sob chefia dele no Hospital Pró-Cardíaco. Nesta época, acabei publicando trabalhos originais no campo da imunologia e a transição para o teatro aconteceu de forma necessária. Chegou um ponto em que as ideias que eu defendia precisavam de outros fóruns e outros diálogos. E no trabalho com cultura, fomos dar de cara com a medicina coletiva e a saúde pública. Com o aprofundamento do entendimento sobre a questão da cultura, seus padrões e arquétipos, trabalhando no Hotel da Loucura, dentro do Hospício, a partir de Nise da Silveira, encontramos a manifestação clara e poderosa do arquétipo de Dionisos, deus do teatro e da loucura. Veja você que o dramaturgo Eurípedes escreve o mito de Dionisos retornando a Tebas para instaurar os ritos dionisíacos do carnaval, da festa, do vinho, mas é desafiado pelo General Penteu, primo direto de Dionisos, arrogante, descrente, opressivo, violento, que proíbe as festas públicas. Ele manda prender as bacantes ensandecidas nas cadeias públicas e prende Dionisos.

Penteu manipula seus ritos para dominar politicamente a população. Leva toda a cidade de Tebas ao adoecimento, ao ensandecimento público. Dessa forma, o meu discurso e práticas científicas e culturais vão à direção da honra de Dionisos, deus da cultura popular, para revelar as manipulações e anunciar a fertilidade e a possibilidade de saúde para a coletividade, curar a loucura do povo. E quando pensamos em política pública, em produção simbólica, chamo de política de dionização pública, para levantar a alma das coletividades, que anda baixa, e não é de agora.

A evocação ao General Penteu é para mostrar que esse conflito é eterno e que há experiências que podem nos auxiliar a todos. Aliás, só haverá avanço se todos honrarem as tradições e dançarem para Dionisos, sem distinções. Ele é o primeiro Deus de nossa tradição greco-árabe-judaico-cristã-tupi-nagô. Penteu é destroçado vivo ao fim da peça, é uma tragédia terrível.  E nós dizemos que temos que matar simbolicamente um Penteu por dia para poder se libertar e celebrar a vida. É difícil, mas dá para fazer.

Teias – Para fechar com um número simbólico: "Muitas pessoas são infelizes, internamente torturadas, por não dominarem nenhuma arte de ação expressiva", disse John Dewey.

Pordeus – O Amir Haddad, meu mestre no teatro, diz "O que dentro de ti te mata, fora de ti, te salva”.

*O mesmo que abertura, texto de introdução